Notícia

  • 14 março 2014
  • Policial
Pedreiro despenca do terceiro andar de prédio em construção e morre
O pedreiro Antônio Martini, 64 anos, morreu ontem, 13, ao despencar de uma obra na Rua São Pedro, esquina com a Rua Senador Vergueiro, bairro Guanabara, por volta das 8h30. Ele estava em um andaime, retirando tábuas de uma coluna de concreto, quando a estrutura cedeu e ele caiu de uma altura de nove metros (terceiro andar). A morte foi instantânea.

O sargento Inoir Gandim, do Corpo de Bombeiros de Francisco Beltrão, conta que quando a equipe chegou ao local, já encontrou o homem sem vida e percebeu que ele não usava equipamento de proteção individual (EPI). "Não sabemos se alguém retirou para prestar algum socorro inicial, mas da forma que o encontramos, não estava usando os equipamentos." Após o acidente, os peritos do Instituto de Criminalística (IC) e investigadores da Polícia Civil estiveram no local para fazer os levantamentos preliminares. Um inquérito policial será aberto para investigar as circunstâncias da fatalidade.

De acordo com o sargento Gandim, o uso do equipamento de proteção individual é obrigatório. "Nós sempre orientamos para os trabalhadores usarem os equipamentos, porque muitas vezes a habitualidade do trabalho e o excesso de confiança devido ao grande período que exerce a profissão fazem com que o trabalhador não veja necessidade de usar o EPI. Isso tem que se tornar um hábito, todos têm que usar a todo o momento, em todo o lugar da obra, porque um acidente é uma sequência de falhas humanas."

Outra preocupação da corporação é que os andaimes são feitos com material improvisado, ficam expostos à ação do tempo e perdem a resistência. O sargento observa que existem órgãos governamentais responsáveis pela fiscalização, porém, acima de tudo, quem deve cobrar os equipamentos são os próprios operários.


Representantes do Instituto de Criminalística e da Polícia Civil fazem levantamento
na obra.

 

O acidente

A legislação determina que o cinto de segurança seja usado para trabalho em altura superior a dois metros em que haja risco de queda. Também pede trava-queda de segurança acoplada ao cinto ligado a um cabo de segurança independente, para os trabalhos realizados com movimentação vertical em andaimes suspensos de qualquer tipo.

Segundo o policial civil Renato Grabaski, esses itens não foram encontrados na obra. Além disso, o andaime estava fora das especificações técnicas. Não tinha, por exemplo, o parapeito, que é uma das exigências, e a sustentação era feita em um barrote de madeira amarrado por um arame. Para prender o arame foram feitos alguns furos no piso, enlaçando a madeira em uma barra de ferro. Ocorre que quem fez o trabalho não percebeu que em uma das amarrações o arame não passou pelo ferro. Quando o trabalhador subiu no andaime, com o seu peso a fina camada de cimento cedeu e a estrutura ruiu. Agora, a polícia aguarda o laudo da Criminalística para dar seguimento ao inquérito policial.

Agitação e estresse

O pedreiro Santo da Silva, 62 anos, colega de trabalho de Antônio, disse que seu amigo estava bastante agitado naquela manhã. "A gente veio para o trabalho juntos, viemos conversando. Contei que estou um pouco mal, com tosse e pontada, e ele me recomendou que fosse consultar. Ele não falou muito, percebi quando a gente chegou que ele queria fazer todo o serviço de uma vez só, parecia estressado. Eu fui fazer umas caixarias e ele foi retirar aquelas tábuas, não vi o acidente, só percebi quando um peão veio me avisar que ele tinha caído." Eles trabalhavam juntos há pelo menos 18 anos. No total, eram cinco trabalhadores na obra - dois pedreiros e três serventes. A equipe começou a trabalhar no local a partir do segundo piso, há mais ou menos três meses.

"Está tudo irregular"

Osmar Krüger, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Construção Civil de Francisco Beltrão, esteve no local do acidente e disse que na semana anterior tinha conversado com Antônio Martini e alertado sobre a necessidade do uso do capacete e do cinto. "Conheço ele há 20 anos, semana passada conversamos sobre isso lá na sede do sindicato." Osmar averiguou as condições de segurança da construção e sentenciou: "Está tudo irregular". O presidente ressalta que insistentemente o sindicato tem batido nesta tecla, no entanto, os próprios trabalhadores não gostam de usar os equipamentos de proteção recomendados. "Se paga com a vida por uma teimosia, pois se estivesse com o cinto, hoje ele estaria vivo", lamenta. O dirigente sindical afirma que quando ocorrem tragédias como esta, os trabalhadores percebem a necessidade dos equipamentos e passam a usá-los, "mas passa uma semana, passa um mês e volta tudo como era antes". Conforme disse, na área de abrangência do sindicato estão sendo registradas entre sete e oito mortes por ano decorrentes de acidentes de trabalho na construção civil.
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